Rádio K7 2020-08-15T22:37:50+00:00

 

 

De acordo com os reguladores e burocratas, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípios de 80, não devíamos ter sobrevivido até hoje. (…) 

Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e airbags, viajar à frente era um bónus e uma guerra, para os que têm irmãos e irmãs. (…) Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos groselha com açúcar, sumos e Coca-Cola, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora. (…)

Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso. Havia desenhos animados (Abelha Maia, Sindbad, Conan, He-Man, Dartacão, Willie Fog, Bocas, Tom Sawyer, Huckleberry Finn, etc.), séries e programas giros (Duarte & Companhia, Buck Rogers, Galáctica, Espaço 1999, O Justiceiro, Soldados da Fortuna, Alf, Rua Sésamo, etc.), mas não dependíamos da TV. (…)

Íamos a pé para casa dos amigos. Acreditem ou não íamos a pé para a escola. Não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem.

“Podemos responder simplesmente que toda a gente gosta de lembrar a sua infância e de dizer que no seu tempo é que era bom. Ou podemos justificar que essa geração, agora nos trintas-quarentas, é quem hoje dita o entretenimento que é servido nos talk-shows televisivos e no horário nobre das rádios. Mas estaríamos assim a ignorar algumas características específicas que tornam a década de 80 icónica..”

“O que explica que os clássicos das Doce continuem a incendiar algumas pistas de dança e que José Cid mantenha uma popularidade invejável nas festas académicas? Que bandas novas como os Ciclo Preparatório e Os Capitães da Areia, cujos membros nasceram já na década de 90, assumam a estética e sonoridade da pop portuguesa dos anos 80 e tenham a Lena d’Água, diva nacional dos anos 80, como talismã?”

“Ou que uma rádio que passa música entre 1970 e 2000 se chame simplesmente M80? Afinal, o que têm de tão especial os anos 80?”

“Em casa, o ecrã da televisão servia para dois propósitos: para ver os desenhos animados, servidos em doses moderadas nas tardes de semana e nas manhãs de fim-de-semana, e as novelas e concursos ao serão, em família; ou para jogar nas vetustas consolas Atari ou ZX Spectrum (load aspas aspas enter play, lembram-se?).”

“Na música, surgiu um nicho de mercado infantil, protagonizado por Ana Faria e os Queijinhos Frescos, os Ministars e os Ondachoc. Mas mesmo os mais novos ouviam também o pop-rock português que cresceu em força nos anos 80, com a ascensão de nomes como Rui Veloso, Xutos & Pontapés, Heróis do Mar, Táxi e UHF, e o auge das carreiras de artistas como Lena d’Água ou os Trovante.”

“O grande elemento aglutinador do imaginário dos anos 80 foi, sem dúvida, a televisão. A RTP era a única estação, dividida por dois canais complementares — havia até um sinal a piscar no ecrã para avisar que estava a começar um novo programa no outro canal. As emissões não duravam 24 horas, longe disso. No início da década de 80, o número de horas de emissão chegou até a ser reduzido, primeiro para poupar energia (!), mais tarde para cortar na despesa pública.”

“Para Isabel Ferin da Cunha, investigadora na área dos media na Universidade de Coimbra, “os anos 80 caracterizam-se pelo domínio das telenovelas brasileiras e pelos concursos familiares”. O ano de 1977 é decisivo na história da televisão portuguesa, ficando marcado por dois programas precursores do seu género.”

“A 16 de maio, estreava Gabriela, a primeira telenovela brasileira, que fazia parar o país — até o Parlamento adaptou os seus horários para que os deputados não perdessem um episódio — e introduzia novo vocabulário e comportamentos. Isabel Ferin da Cunha comenta que “os espectadores, sobretudo as classes médias portuguesas em ascensão, percebiam os conteúdos das telenovelas como modelos de comportamentos, estilos de vida e valores inerentes à modernização”.”

“(…)Não vivemos revoluções, vivemos numa espécie de Disneylândia colorida que foram os anos 80, uma idade da inocência feita de desenhos animados, filmes, canções, brinquedos e guloseimas improváveis, em que as guerras eram frias e a inexistência de redes sociais e de reality shows nos fizeram crer que praticamente toda a gente era fixe, exceto os vilões dos filmes e das séries.”